quarta-feira, 9 de julho de 2008

Um futuro inventado, desejado, demasiado.

Conversas sobre o futuro são sempre edificantes. Pelo menos quando imagino o que viria a ser meu futuro perfeito. Ei-lo descrito:

2029 - Letícia Birth M. C. H. (sobrenomes omitidos para preservação da honra de seus donos).

  • Com uma pensão alimentícia de 225 mil doláres quinzenais, Letícia vive com seus três lindos filhos: Gabriel, Luísa e Daniel/Beatriz, em sua singela 'casa' na serra gaúcha.
  • Jornalista por formação, roteirista premiada nas horas vagas, passa o dia a ler grandes obras de grandes mestres/as e a ver seus filmes favoritos da vida toda.
  • Solteira, não divide a cama com seu último namorado: o novo modelo da Calvin Klein, o inglês com sorriso colgate e recém 18 anos completados.
  • Adora dirigir e pratica o automobilismo em sua pista de corrida particular, na parte oeste da serra, que ganhou do penúltimo sogro.
  • Joga xadrez compulsivamente, quando não está a pintar as unhas quadradas de vermelho ou a procurar cabelos brancos em sua sempre tão querida franja.
  • Com seu par de pantufas de macaco, já remendadas, afinal, as têm desde seus onze anos, pratica ioga todos os dias, ao pôr-do-sol, sua visão preferida desde a infância - que só perdia para as costas do último marido, em movimento no Squash.
  • Em sua vitrola, feita especialmente para ela pela mesma marca dos pratos da bateria do primeiro esposo, ouve os discos que sempre ouviu, ao passar as noites acordada, observando vagalumes na janela ou apreciando uma Heineken gelada. Beatles, Strokes e Mutantes continuam sendo as bandas mais ouvidas.
  • Vive de moletom e uma exigência de velha precocemente inutilizada pela sociedade é de que a visitem com tal vestimenta. Afinal: "existe coisa melhor do que um abraço de moletom no inverno?"
  • Letícia ainda é feliz, apesar da febre reumática, que na serra só ataca quando ela está entediada. Com dois ou três goles de absinto, mal sente dor - seu fígado quarentão, infelizmente, não é mais o mesmo. "Absinto no lugar da morfina", foi o nome de seu último documentário investigativo.
  • Ela ainda come comida chinesa em demasia e diz que está brincando quando xinga ou negramente faz humor.
  • A senhora com pinta de velhota desinibida ainda liga para o "Disque Piada", agora remixado e continua odiando a droga do gerundismo, qualquer espécie de banco, eletrodomésticos que não funcionam quando mais precisa-se deles e as fotos indesejadas, como as dos paparazzi, cada vez mais ligeiros e inconvenientes.
  • Porém, ainda ama o perfume Flower by Kenzo, suas meias e lençóis coloridos e os cabelos tão macios, cheirosos e bagunçados de seus alunos. Ela dá aulas de português para medicineiros de até 20 anos, necessitados de boa redação para o vestibular - pois filantrópica se tornou com a fortuna.
  • Letícia quando senta-se em sua varanda e abre seu Twix de sempre, em tardes nubladas e frescas, pára e pensa: "Sim, essa é a vida que pedi a Deus, quando 19 anos tinha e toda ela pela frente. Eu já sabia!".