- Sómbrio. O pensamento de entrar em uma nova década, um novo ciclo, um novo momento da vida, é sómbrio. Apesar de parecer bobagem, pessoas com um senso de planejamento absurdo e dominador, com metas difícies que gritam por serem realizadas com rapidez, veem isso assim. Talvez por medo de não dar tempo, por sentirem que mesmo com essa falsa disciplina, suas vidas caminham por trilhas perigosas, que são conturbadas demais, pecam por pensar tanto e nisso. Eu sou uma dessas pessoas.
- Sou também aquele tipo de pessoa estranha, que gosta de responder questionários, faz balanços incontáveis e listas, muitas listas. Mas não acho isso estranho. Estranho seria ser aquele tipo de pessoa que pisa em flores caídas, que não gosta de cachorro, que não lê um livro por semana. E ainda assim, sei que esse tipo de gente não é estranho, só é diferente de mim. Vou ser sincera, como muitas vezes, de forma impulsiva, irracional e dita 'sem noção', acabo sendo. Falar de mim, pra mim, não é tão ruim: entra nos balanços incontáveis e nas listas; sempre faço.
- Alguns bons minutos de reflexão e vamos lá. 20 anos é uma idade que divide águas. Quando fiz 10, 15, 18, em nenhuma dessas ocasiões me deparei com a derradeira: o que fiz e o que não fiz até agora? E com 20 não é que tal questão surgiu? Não me arrependo de muitas coisas, isso é bom. Nem das que ainda não fiz, mas esfria a espinha pensar em vários ocorridos, situações malucas, palavras, gestos. É muita vida vivida até então, e me gabo por tentar viver com intensidade. Tentar. Aparências enganam demais. E também sou aquele tipo de pessoa que você tem que conhecer por um pouco mais de tempo pra saber como se é. Os que sairam rapidamente da minha vida não souberam disso.
- Algumas coisas definidoras: sou sedentária, amo comer (porcarias, pois nem sei dizer quando comi salada pela última vez), nunca fiz academia - isso de pagar e ir todo dia, mesmo cogitando, nunca consegui. Ponto. Porém, passei anos e mais anos de minha até agora curta vida, praticando esportes. É, sou contraditória, lembrei. Natação e nem consigo pular de ponta. Enxadrista de campeonatos, hoje viciada em gamão e isso é uma contradição à classe. Ginástica ritmíca, Olímpica, Caralho a Quatro: ser humano travado, com baixos resquícios de uma flexibilidade que outrora existiu. Além de sentir fortes dores, ainda digo palavras de baixo calão com certa freqüência. Mais um hábito a ser fortemente combatido na nova fase. E o volêi. Ahhh, o vôlei. De quadra, de areia, de suor, de cansaço, de broncas, de hematomas. Não nasci pra isso. Gostava de viajar, observar o comportamento do time quando perdia, quando ganhava, de conceder entrevistas como alguém que tinha a vida tocada por aquele mundo. Nunca foi. E tinha a competição. Atualmente me sinto mais calma, sem vontade louca de vencer, mas com tantas disputas presentes na vida, não tinha como não querer ganhar tudo. Enfim, fui aquela garota da família que em época de Olímpiadas dizia-se: logo, logo, a Letícia está ali. Continuo sendo. Minha avó torce pra que eu seja correspondente de Olímpiadas. Nem tudo está perdido, afinal.
- Isso vai ficar grande, muito grande, mas vai me fazer bem, muito bem. Se um dia eu for alguém com um terço da importância que outros alguéns me atribuem, já valeria pra me conhecer um pouco mais. Mas não sou tão otimista pra esperar por tal acontecimento. Peco por isso. Pessimismo como se fosse realismo, um medo grotesco de cair de uma certa pose de super pessoa equilibrada, desencanada, perfeita. Não sou, não quero ser, não consigo. Tentei. Quem não tenta? Mas descobri já, em 20 primaveras, que não é possível. Infelizmente, a perfeição é reservada aquilo que não pensa: natureza, chocolate, cervejas geladas. Mesmo o que é idealizado pelo homem (o ser pensante) atinge sua perfeição exatamente por não ser como o dono. Pensar, no meu caso, é terrivelmente macabro. Me dói. Me consome. Mas gosto. Sei que sem pensar como penso me tornaria um alguém por quem eu provavelmente não me interessaria, e isso restringe até mesmo minhas relações pessoais a um nível bem menor de arrependimento - se forem terminadas, explico. Penso muito na vida, na minha, nas que crio, nas que vejo, penso em vida. Por isso, essa coisa de viver parece tão sagrada. E tão assustadora. Não me entra na cabeça alguém querer morrer, mas entendo se bem explicado. Vai ver simplemente se cansou desse caos que nos deparamos todo dia ao acordar. E se for ver, é caos pra enlouquecer qualquer um. Sorte dos que superam e vivem por viver. Mas os que pensam...
- Por pensar demais, mesmo o mais sendo menos - não penso como Einsten ou Platão (droga!) - mas o suficiente pra me tornar desde muito cedo algo que demorei a assumir: uma inventora de histórias. Não sei o momento certo em que isso surgiu em minha vida. Foi depois de aprender a ler e a escrever, claro. Mas não foi tão depois. Sei que pensei, pensei e um dia sentei e escrevi. Depois quando reli, vi o poder da escrita, do registro, da caligrafia mal feita - minha letra é péssima, não vai mudar - e senti o poder da criação. Ele existe e mesmo que seja em duas orações, de um parágrafo qualquer, é felicidade pura ver que aquilo que você pensou deu certo no papel. Loucura? Pode ser. Acho que é, na maioria das vezes. Mas também me faz perguntar como alguém vive sem isso e me faz sentir diferente, até mais feliz. E felicidade é o que importa no fim das contas, não?
- Eu estaria definida nesses já extensos parágrafos. Mas não quero parar de escrever; é amor demais pra parar por aqui. E oras, tenho mais sobre mim. Não me acho super interessante, mas sei que se eu resolvesse fazer um filme sobre mim, pelo menos seria cômico. Segundo Jim Morrison (o gato!) se sua vida não dá um é filme, é melhor revê-la. Assino embaixo. Talvez por ser tão apaixonada por cinema. Ou por viver de uma forma tão louca, às vezes, que qualquer roteirista canastrão teria enredo pra várias películas. Xi. Tenho fama de louca, inconsequente, devastadora, fria, calculista, desligada, desencanada. Enquanto sou apenas impulsiva, desastrada, atrasada, preguiçosa, gulosa, teimosa. Mas perceba: não desmenti a fama, apenas não aumentei. Seja lá o que eu seja, tento ao máximo ser como quero ser, não como os outros desejam e isso me faz feliz. Mas também não posso dizer que sou feliz por completo. Não acredito que alguém possa atingir tal feito. O que tenho me basta, ao falar sobre pessoas, companhias, noites. Mais do que isso, nesse sentido, é futilidade, me fugiria o comando. É, tenho isso de querer comandar minha vida e meus sentimentos. Não consigo, eu sei. Mas deixa eu pensar que pelo menos isso está comigo.
- Não vou entrar em um único departamento: amor. E esse não é aquele que sinto pela Alice, ou por minhas amigas e amigos, mãe, pai, irmã, cachorro. Não farei isso por medo, pode apostar. Não sei o que vai sair, nesse ponto estou sem opinião formada. E percebo ao pensar nisso, neste momento, que estou sem ela desde sempre. Nunca formei uma idéia certa sobre romances. Os que inventei até hoje foram formatados de acordo com observações e alguns poucos fatos que ocorreram comigo. Sempre preferi tardes de conversas e análises de fora pra criar casais legais. Mas isso também não me faz alguém sem ninguém sempre. Na verdade, 'eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também', sempre foi meu lema. Sempre. E até mesmo quando fugi disso, o medo não fez a fuga completa. Nem sempre o que digo é o que penso. Mas não me considero mentirosa. Sou alguém que, nesse sentido, busca analisar o terreno, demarcá-lo, com hipóteses e formas de pagamento. Já descobri, mais de uma vez, que não é o melhor método, ou melhor, descobri que não existe método. Eu só queria conseguir não ter métodos, mas não dá. Eu disse que não falaria nada e falei. Mais um pouco de mim: digo que não, mas penso e sai o sim.
- Orgulhosa, bêbada, polêmica. Dispenso a previsão. Ter orgulho é de se orgulhar. É um escudo que criei nesse caótico mundo perdido. Bebidas a parte, não me queixo de quase nada que fiz em razão delas. Geralmente a verdade sai e não necessariamente de forma escandalosa. Mas pretendo diminuir o já diminuído. Certo mãe, certo pai?
- Sinto que um balanço como este seria melhor feito em várias partes, com listas anexadas e em papel machê, mas não dá. Me falta força pra continuar pensando em mim. Muitas vezes, me canso tanto de mim que queria começar de novo, ver se eu seria de outra forma. Mas aí, algo acontece e eu gosto de ser quem sou, gosto da vida que tento levar, gosto de estar onde estou, fazendo o que me prôpus. Em plena segunda década me defino assim: alguém que gosta de si mesma, com as esquisitices, virtudes e muitos defeitos que unidos são tão únicos, com a aparência fora dos padrões estéticos vigentes e um senso maluco em relação a quase tudo, mas que vive. E isso basta.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Segunda década.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
'Quase sem querer'
- Hoje resolvi transcrever algo que há tempos percebi e venho sentindo: a minha, nesse instante extremamente necessária, vontade de escrever. A escrita em minha vida é muito comum, desde muito cedo, portanto deveria ser mais fácil. Também acho, é o que desejo constantemente. "Saia, saia de mim, idéia. Fique no papel ou em algum espaço cibernético". Mas não é assim. Se fosse, a maioria dos escritores não seriam considerados pessoas tristes, solitárias, suicidas e tudo o mais que lhes atribuem. Não que eu esteja me considerando uma escritora, dessas profissionais, talentosas e mantidas em suas paranóicas invenções artísticas. Não. Apenas digo que entendo-as. Sei exatamente a dificuldade que muitas vezes se torna pegar uma caneta e colocar o que se pensa no papel em branco. Posso dizer, álias, que quando as palavras resolvem escapar e se fazer aparentes isso é totalmente natural. Rapidamente, os contornos esferográficos vão dizendo aquilo que a alma de alguém criou, com sofrimento, paixão ou esperança. O que estou sentindo agora não é isso, definitivamente. É aquela dificuldade em se registrar idéias que há tanto estão guardadas, que não saem como imagens já codificadas, que precisam de um bom estado de espírito para surgirem. Mas não sou uma escritora, dessas profissionais e talentosas. Então, talvez isso seja mais justificável.
- Esse post nada mais é do que uma declaração, a mim mesma e a quem se interessar, de que os sentimentos presentes em minha vida no momento, me propiciam de forma pura e honesta, trazer a escrita à tona. Seria mentira dizer que foi fácil decidir sentar pra colocar tudo em folhas limpas. Mas sutilmente sinto que conseguirei após a maior de minhas abstinências criativas fazer o que mais amo na vida. Escrever, escrever, escrever, escrever... aquilo que já foi inventado, que já está guardado em mim, só esperando o momento de se tornar público. E não estou falando desse post, de matérias em jornais universitários ou qualquer outro espaço. Hoje, as palavras voltam a tornam-se públicas em seus mundos que criei, em seus conflitos que tanto pensei e que hoje conseguirei espalhar. Entre elas, tão belas, algumas não tanto, mas ricas em um nível que só eu posso medir, saborear, desfrutar. Acredito que todos tenham seu talento, dom ou sonho. E que dessa forma todos possam entender o que sinto em relação às minhas estórias. Caso não haja talento ou dom aparente, o sonho sempre existirá e buscá-lo fará com que as outras coisas apareçam. Por fim, agradeço a vida - por mais sentimental e controverso que tal agradecimento pareça - por me possibilitar nesse momento entrar em contato com meu universo paralelo. O universo que tanto me faz bem. Pois sim, se eu fosse uma escritora, dessas profissionais e talentosas, dificilmente seria conhecida como a suicida, a triste, a solitária, mas como aquela que precisa de dias nublados, floridos e então felizes, para ser apenas ela mesma, em sua felicidade pequena e marota, mas feliz.
Uma música que representa, exatamente, um estado de espírito pré-criação:
Tenho andado distraído, impaciente e indeciso e ainda estou confuso.
Só que agora é diferente: estou tão tranquilo e tão contente.
Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria era provar pra todo o mundo,
que eu não precisava provar nada p'ra ninguém.
(...)
Como um anjo caído, fiz questão de esquecer
Que mentir p'ra si mesmo é sempre a pior mentira.
Mas não sou mais tão criança a ponto de saber tudo.
Já não me preocupo se eu não sei porquê.
Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê.
(...)
Tão correto e tão bonito, o infinito é realmente um dos deuses mais lindos.
Sei que às vezes uso palavras repetidas
Mas quais são as palavras que nunca são ditas?
(...)
Renato Russo.
Só que agora é diferente: estou tão tranquilo e tão contente.
Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria era provar pra todo o mundo,
que eu não precisava provar nada p'ra ninguém.
(...)
Como um anjo caído, fiz questão de esquecer
Que mentir p'ra si mesmo é sempre a pior mentira.
Mas não sou mais tão criança a ponto de saber tudo.
Já não me preocupo se eu não sei porquê.
Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê.
(...)
Tão correto e tão bonito, o infinito é realmente um dos deuses mais lindos.
Sei que às vezes uso palavras repetidas
Mas quais são as palavras que nunca são ditas?
(...)
Renato Russo.
- Terminarei a partir de agora meu filho favorito, ele que desejo conceber há tempos. Ah, como é bom ser mãe de roteiros!
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Um futuro inventado, desejado, demasiado.
Conversas sobre o futuro são sempre edificantes. Pelo menos quando imagino o que viria a ser meu futuro perfeito. Ei-lo descrito:
2029 - Letícia Birth M. C. H. (sobrenomes omitidos para preservação da honra de seus donos).
- Com uma pensão alimentícia de 225 mil doláres quinzenais, Letícia vive com seus três lindos filhos: Gabriel, Luísa e Daniel/Beatriz, em sua singela 'casa' na serra gaúcha.
- Jornalista por formação, roteirista premiada nas horas vagas, passa o dia a ler grandes obras de grandes mestres/as e a ver seus filmes favoritos da vida toda.
- Solteira, não divide a cama com seu último namorado: o novo modelo da Calvin Klein, o inglês com sorriso colgate e recém 18 anos completados.
- Adora dirigir e pratica o automobilismo em sua pista de corrida particular, na parte oeste da serra, que ganhou do penúltimo sogro.
- Joga xadrez compulsivamente, quando não está a pintar as unhas quadradas de vermelho ou a procurar cabelos brancos em sua sempre tão querida franja.
- Com seu par de pantufas de macaco, já remendadas, afinal, as têm desde seus onze anos, pratica ioga todos os dias, ao pôr-do-sol, sua visão preferida desde a infância - que só perdia para as costas do último marido, em movimento no Squash.
- Em sua vitrola, feita especialmente para ela pela mesma marca dos pratos da bateria do primeiro esposo, ouve os discos que sempre ouviu, ao passar as noites acordada, observando vagalumes na janela ou apreciando uma Heineken gelada. Beatles, Strokes e Mutantes continuam sendo as bandas mais ouvidas.
- Vive de moletom e uma exigência de velha precocemente inutilizada pela sociedade é de que a visitem com tal vestimenta. Afinal: "existe coisa melhor do que um abraço de moletom no inverno?"
- Letícia ainda é feliz, apesar da febre reumática, que na serra só ataca quando ela está entediada. Com dois ou três goles de absinto, mal sente dor - seu fígado quarentão, infelizmente, não é mais o mesmo. "Absinto no lugar da morfina", foi o nome de seu último documentário investigativo.
- Ela ainda come comida chinesa em demasia e diz que está brincando quando xinga ou negramente faz humor.
- A senhora com pinta de velhota desinibida ainda liga para o "Disque Piada", agora remixado e continua odiando a droga do gerundismo, qualquer espécie de banco, eletrodomésticos que não funcionam quando mais precisa-se deles e as fotos indesejadas, como as dos paparazzi, cada vez mais ligeiros e inconvenientes.
- Porém, ainda ama o perfume Flower by Kenzo, suas meias e lençóis coloridos e os cabelos tão macios, cheirosos e bagunçados de seus alunos. Ela dá aulas de português para medicineiros de até 20 anos, necessitados de boa redação para o vestibular - pois filantrópica se tornou com a fortuna.
- Letícia quando senta-se em sua varanda e abre seu Twix de sempre, em tardes nubladas e frescas, pára e pensa: "Sim, essa é a vida que pedi a Deus, quando 19 anos tinha e toda ela pela frente. Eu já sabia!".
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